Por Lonne | Publicado em 05/10/2026 | Leitura: 8 min
Quem nunca ouviu aquela frase clássica de motorista de aplicativo: "Vou tirar tudo do Tesouro e colocar na poupança, porque não sei o que vai acontecer com a eleição"? Pois é. Em outubro de 2026, essa conversa está por todo lugar — em grupos de família, no trabalho, no ponto de ônibus.
O primeiro turno acabou de acontecer, o segundo está marcado para o dia 25, e o mercado já reagiu de forma intensa. A Bolsa subiu, o dólar caiu, e muita gente está se perguntando se deve mexer ou não no dinheiro.
A resposta curta é: depende do seu objetivo, não do resultado da eleição. Mas vamos por partes.
O que os números estão dizendo
Na primeira sessão após o primeiro turno, o mercado brasileiro reagiu com otimismo. O dólar caiu para perto de R$ 4,97, e a Bolsa superou os 192 mil pontos, impulsionada por ações de logística, bancos e energia.
Grandes bancos internacionais, como o JPMorgan, já projetam um cenário de valorização adicional para as ações brasileiras, com potencial de alta entre 11% e 20%, além de um dólar que pode testar a casa dos R$ 5.
Mas aqui está a parte que a maioria ignora: essa reação é de curto prazo. O que sustenta uma alta de meses ou anos não é o nome de quem ganha a eleição — é a capacidade do próximo governo de organizar as contas públicas.
O Brasil tem uma dívida bruta que passou de R$ 2,7 trilhões para R$ 11 trilhões em pouco mais de uma década. Em proporção do PIB, saltou de 51,5% para 82,9%. Esse é o número que realmente importa para o seu dinheiro no longo prazo.
O erro do "Seu Francisco"
Vou te contar uma história real que circulou esta semana. Um motorista de aplicativo, chamado Seu Francisco, decidiu tirar todo o dinheiro que tinha no Tesouro Selic — um investimento seguro, com liquidez diária — e colocar na poupança. Motivo: medo do que poderia acontecer com a eleição.
O problema? A poupança rende menos que o Tesouro Selic. E o dinheiro dele não era para especular com o resultado das urnas — era a reserva de emergência, aquela que a gente usa quando o carro quebra ou quando aparece um imprevisto.
Reserva de emergência não se mexe por causa de eleição. Ela fica onde está, rendendo o que tem que render, disponível quando você precisar. Ponto.
Se você fizer como o Seu Francisco, vai trocar um investimento melhor por um pior, e ainda vai perder rendimento no processo. Tudo por causa de uma ansiedade que não tem fundamento.
O que realmente muda no seu bolso em 2027
Agora, uma coisa que realmente vai mudar a sua vida financeira — e que quase ninguém está falando — é a Reforma Tributária.
2026 é o ano de teste. Os impostos novos (IBS e CBS) aparecem nas notas fiscais, mas ninguém paga nada ainda. É como um ensaio geral.
Mas em 1º de janeiro de 2027, a cobrança começa de verdade. O que isso significa na prática?
- Cesta básica com alíquota zero: arroz, feijão, leite e outros itens essenciais não vão pagar os novos impostos. Isso deve segurar o preço desses produtos.
- "Imposto do pecado": bebidas alcoólicas e cigarros vão pagar mais. É o chamado Imposto Seletivo, criado para desestimular o consumo desses itens.
- Cashback para famílias de baixa renda: quem está no CadÚnico vai receber de volta parte do imposto pago em compras do dia a dia. A estimativa é de um aumento de cerca de 10% na renda mensal dessas famílias — algo em torno de R$ 46,50 por mês.
Ou seja: enquanto a eleição é um evento de curto prazo, a Reforma Tributária é uma mudança estrutural que vai afetar o seu bolso por décadas.
Cuidado com os oportunistas
Períodos de incerteza são o paraíso dos golpistas. Esta semana, uma empresa de segurança identificou um site falso que imitava o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e cobrava R$ 47,90 via Pix para "regularizar" o título de eleitor.
O golpe usava dados pessoais reais — nome completo, nome da mãe — para parecer autêntico. E ameaçava: sem pagar, você não poderia votar, perderia benefícios do governo, teria restrições em serviços.
Mentira. O TSE não cobra taxa para regularizar título. O serviço é gratuito, e quando existe multa, ela é paga em canais oficiais, com destinatário sendo o Tesouro Nacional — não uma empresa em Curitiba.
Como se proteger:
- Desconfie de qualquer cobrança que venha por link, mensagem ou anúncio;
- Verifique sempre o endereço da página. O site oficial do TSE é tse.jus.br — não "tse.online" ou similar;
- Confira o destinatário do Pix antes de pagar qualquer coisa;
- Em caso de dúvida, acesse os canais oficiais diretamente, sem clicar em links.
E esse mesmo cuidado vale para investimentos. Em épocas de eleição, aparecem "vendedores de milagres" oferecendo "dólar garantido" ou "ouro que só sobe". Fuja. Se a promessa é boa demais, é golpe.
O que fazer agora (e o que NÃO fazer)
NÃO faça:
- Não tire dinheiro da reserva de emergência para "aproveitar a alta" ou "se proteger da queda";
- Não mude sua estratégia de investimentos por causa do resultado eleitoral;
- Não caia em promessas de ganhos rápidos que aparecem em períodos de incerteza;
- Não tome decisões financeiras baseadas em pânico ou euforia.
Faça:
- Mantenha sua reserva de emergência onde ela está (Tesouro Selic ou CDB com liquidez);
- Continue com seus aportes mensais, sem tentar "acertar o timing" do mercado;
- Aproveite para estudar sobre a Reforma Tributária e como ela vai afetar o seu bolso em 2027;
- Se você tem objetivos de curto prazo, priorize segurança. Se tem objetivos de longo prazo, mantenha o foco.
Lembre-se: o mercado reage a eleições, mas o seu dinheiro deve reagir aos seus objetivos.
Resumo rápido
A eleição movimenta o mercado no curto prazo, mas o que realmente importa para o seu dinheiro é o cenário fiscal e os seus objetivos. Não mexa na reserva de emergência por causa do resultado das urnas. Fique atento à Reforma Tributária, que começa a valer em 2027 com mudanças reais no seu bolso. E cuidado com golpes que se aproveitam da incerteza — só use canais oficiais.
Aviso importante
Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Cenários econômicos mudam — consulte sempre fontes oficiais antes de tomar decisões.
Leia também
- Reserva de Emergência: Quanto Guardar e Onde Investir
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Este post foi escrito por Lonne e publicado originalmente em 05/10/2026.

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